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De noite, sorridente. Pela manhã, mal-humorada. Eu vivo em Brasília, mas juro que não sei de nada. Sou publicitária, feminista, carioca das Laranjeiras. Seja bem-vindx e muito prazer. Me chamo Camila Bandeira.

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Obvious

Imagine uma guerra de conhecimento

Texto original, de julho de 2016, no site Obvious.

Esses dias li uma matéria que um artista argentino transformou seu carro em um tanque de guerra, só que de livros. Agora, imagine você uma guerra de conhecimento, onde vence quem for atacado mais vezes.

Imagine uma guerra de soldados da ciência, coronéis das letras, armas de destruição/construção em massa… Um exército inteiro pronto para atacar. Para se alistar, os músculos são dispensáveis. A altura não importa, nem tampouco o tamanho do seu coturno. Mas é preciso estar armado. Uma bibliografia inteira deve estar no gatilho.

Um ataca com Clarisse, outro devolve com Camões. Pode vir um tanque de Dostoiévski, que te devolvo com Virginia Woolf. Ah! E Shakespeare vale dois! Deixe esse para os atiradores de elite.

Até a menor mina colocada no chão, de um gibi infantil, explode em palavras pelo ar para fazer estragos dos mais bonitos. E aquelas pequenas balas, de notas de rodapé, quando certeiras, fazem toda a diferença.

Quando for livro raro, damos uma trégua. Me explica direitinho para ver se eu entendi? Não podemos desperdiçar munição, né.

Seria a guerra perfeita, trocando tiros de amor e bombas de conhecimento. Tudo isso, em busca do que temos de mais raro: sabedoria. Mas mesmo que a gente nunca conquiste todos os territórios desejados, espalharíamos informação de qualidade por aí, abastecendo o estoque para que todos consigam pensar sozinhos. Que mal isso faz?

E para começar, um monte de soldados na trincheira, à postos para a mais incrível experiência de suas vidas. Bandeira branca não existe por aqui. Quem for esperto, que atire o primeiro livro.

…Bum!

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Com o perdão do trocadilho, ser mulher é do caralho

Texto original, de março de 2016, no site Obvious.

feminismo

Se pudesse escolher, seria mulher dez vezes, cem, mil! Em qualquer época, a qualquer momento. Seria mulher para não ter direito de voto. Seria mulher para não poder usar calça comprida (e depois short curto). Seria negra, da periferia, para trabalhar em dois turnos e ainda cuidar dos filhos. Seria mulher para ser assassinada ao viajar sozinha. Seria mulher cis e seria mulher trans!

Seria mulher oriental, em família de filho único, para ser rejeitada a vida inteira por não produzir testosterona. Seria mulher para apanhar do marido. Seria mulher para ser estuprada. Seria mulher para ser dona de casa, sustentar a família e ainda cuidar da tia doente. Seria mulher para ser objeto sexual. Seria mulher para viver à espera de um príncipe encantado. Seria mulher para ter que fazer dieta para o verão, porque gorda não pode ir à praia.

Seria mulher para ser assediada na rua, ouvir fiufiu de imbecil e ter que tirar o batom se o namorado mandasse. Seria mulher para ganhar um salário menor que os homens que desempenhassem as mesmas funções que eu. Seria mulher para sofrer mutilação genital. Seria mulher para ouvir piada sexista. Seria mulher para ser chamada de feminazi. Seria mulher para tirar a blusa e ouvir que isso é atentado ao pudor. Seria mulher para me prostituir. Seria mulher para fazer aborto clandestino, já que é a única solução que me restaria.

Eu seria mulher quantas vezes fossem necessárias para provar ao mundo que, mesmo com todas as condições às quais somos submetidas, jamais desistiríamos de ser quem somos.

Porque eu seria mulher de novo para gritar ao mundo que mereço direitos iguais. Seria mulher de novo para poder votar a cada eleição. Seria mulher de novo para poder dirigir sem ser xingada no trânsito. Seria mulher de novo para dividir as tarefas da casa. Seria mulher de novo para não usar mais sutiã. Seria mulher de novo para usar roupa rosa e roupa azul e roupa amarela e roupa de arco-íris. E para não usar roupa nenhuma!

Seria mulher de novo para ocupar cargos políticos. Seria mulher de novo para poder andar sozinha à noite, sem medo. Seria mulher de novo para ser respeitada pelo meu parceiro. Seria mulher de novo para alcançar altos cargos na empresa onde trabalho. Seria mulher de novo para abortar com segurança. Seria mulher de novo para brincar de boneca e de carrinho e do que eu bem entendesse. Seria mulher de novo para usar muita saia curta e muito batom vermelho.

E seria mulher de novo, simplesmente, para sentir o orgulho que sinto todos os dias quando acordo e que só nós, mulheres, sabemos como é.

A palavra da vez é: empoderamento

Texto original, de março de 2016, no site Obvious.

jout

Dia Internacional da Mulher, primavera feminista, março lilás… E encerramos a primeira semana do mês com a impressão de que não conseguimos acompanhar. Parece que ninguém conseguiu. Como apaixonada pelo universo digital e mais ainda por empoderamento feminino, venho trazer um pouco do meu olhar sobre essa avalanche de conteúdo feminista pela qual estamos tendo o prazer de ser soterrados. Em 2016, o Youtube fez história.

Apesar de spoilers captados pelos mais envolvidos, tudo começou com um vídeo simples, que mostrava sete youtubers influentes representando 7 mulheres poderosas que lutaram, cada uma em seu tempo, por espaços na sociedade. São quase três minutos de muitos pelinhos arrepiados no braço. E isso tudo só com a trilha correta, frases icônicas e figurino impecável. Simples e incrível… Jeitinho Youtube de ser. No Brasil, nossa representante foi ninguém menos que a genial Julia Tolezano, mãe da família Jout Jout. Nos vídeos seguintes e em suas publicações por todos os dias, ela fez questão de explicar o projeto e o que toda essa movimentação significava.

Minha percepção sobre essa campanha em uma palavra: metalinguagem. O Youtube promoveu o encontro entre youtubers mulheres de todo o mundo para falar sobre mulheres no Youtube em todo o mundo. Tchanã! De novo, simples e incrível. Cada uma das 7 youtubers que estavam no vídeo oficial receberam convidadas de seu país. Tudo para inspirar mulheres a produzir conteúdo para o Youtube, a ocupar o Youtube, a se fazer presente.

No cantinho bem decorado do Youtube Space de São Paulo, Jout Jout teve 10 encontros com mulheres maravilhosas para falar sobre serem quem são. As convidadas no Brasil foram das mais variadas. Segura o tranco pra essa lista.

Malena quebrou tabus e falou sobre mulheres no universo dos videogames.

Nátaly Neri deu uma aula sobre feminismo negro. E esse foi o único vídeo que não foi para o canal da convidada e, sim, para o próprio Jout Jout Prazer, simplesmente porque a pauta precisa alcançar novos públicos.

Jessica Tauane e Debora Baldin, musas do Canal das Bee, receberam a drag queen Lorelay Fox. E ainda teve uma conexão especial com a Mandy Candy, diretamente de Hong Kong. Foi um combo e tanto, de onde saíram dois vídeos sobre o universo LGBT no Youtube, feminismo e muita risada, como sempre.

Julia Petit falou sobre maquiagem e toda a filosofia por trás do ~supérfulo~, provando que esse tema, de fútil, não tem nada.

Lili Prata e Tati Feltrin, youtubers aos 30, falaram exatamente sobre como é viver disso com mais de 30 anos. E este vídeo ainda contou com a participação da Tati Leite, que tem dois canais no Youtube e coordena projetos no Youtube Space de São Paulo.

Ana de Cesaro dividiu seu vídeo em três e fez uma dinâmica diferente. Ela e Jout Jout tiravam papeizinhos com palavras-chaves e falavam sobre assuntos dos mais diversos: de sexo anal a mulheres no cinema.

Ana Lídia Lopes, a caçula do grupo, falou sobre empoderamento e descoberta da própria identidade. E todos morremos de inveja por não poder abraçá-la também.

A queridinha Flavia Calina não esteve em São Paulo, mas se fez muito presente. Ela falou sobre como é viver em um verdadeiro Show de Truman (e muito mais, é claro. Só assistindo pra entender).

Iza Lima, cantora (maravilhosa) e amiga pessoal da Jout Jout, completou o time por uma feliz coincidência: as duas iniciaram suas carreiras no Youtube no mesmo momento.

E por último, mas não menos importante, ainda teve a Bruna Vieira, que, como a própria Julia fez questão de repetir, “tem 21 anos e já está construindo a própria casa.” Não precisamos mais falar nada.
Mas, afinal, qual foi o propósito?

Como exercício pessoal, sempre me coloco em uma situação de imaginar razões, motivos e intenções por trás de cada movimentação. A verdade é que o Youtube já deve ter percebido que vem fazendo a diferença na vida das mulheres nos quatro cantos do mundo. Então, aproveitaram uma data mundial para provar que ainda podemos mais. Indo além de todo o objetivo comercial, criaram uma campanha de empoderamento totalmente inédita e fizeram, simplesmente, o que muita gente se esquece no dia da mulher: dar voz a quem tem propriedade para falar sobre o tema.

E tudo isso, além de terem feito muita gente feliz, porque ver essas lindas reunidas foi de encher o coração!

Os vídeos principais estão disponíveis no canal Youtube Brasil. Mas tem conteúdo extra espalhado pelos canais das meninas também. E vale a pena uma maratona. 😉

Atualização: Horas depois da publicação deste texto, Jout Jout soltou um vídeo explicando o projeto ainda melhor e mostrando todas as poderosas que participaram. Assiste aqui ó!

Torcida única

Texto original no site Obvious.

torcida

Racismo às avessas, orgulho machista, heterofobia… Dor de cotovelo. Tudo isso agora existe e o que, por séculos, foi ignorado agora é “gente chata”, “politicamente correto”, “falta de rola”, “falta de porrada”, “frescura”, problematização.
Prometo tentar ser didática se você, que já está odiando esse texto, prometer ler com atenção.
Tenho certeza que a maioria das pessoas que conheço já foi a um estádio de futebol. E vocês sabem o que é estar em maioria e só ouvir o som da sua torcida, linda, em coro, unida. É de arrepiar, eu sei!
Mas o ponto é que quando uma torcida é maioria esmagadora, é difícil escutar o outro lado do estádio, quase impossível. Só que a cada gol do adversário, quando o seu lado se cala por instantes, você passa a ouvir o que vem do outro lado, e um pequeno incômodo nasce no peito, embrulha o estômago, sobe à cabeça. E eu sei como é isso também!
Por quase todos os momentos da minha vida, eu estive na maior torcida. Tivera nascido homem e eu poderia afirmar que foi por todos os momentos mesmo. Sempre tive privilégios, sempre estive ao lado de quem gritava mais alto. E poucas vezes tive que me esgoelar para ser ouvida. Sim, para mim sempre foi fácil.
Pois bem, aonde eu queria chegar é que essa tal “torcida mandante” está, pela primeira vez em toda a sua existência, escutando, beeem ao longe, o grito crescente da torcida vizinha, que parecia muda por séculos. A diferença é que essa disputa envolve muito mais que times de futebol. Envolve nossos valores, nosso futuro e nossa sociedade: diversa, linda, “junto e misturado”, do jeitinho que ela sempre foi.
E muita gente se sente incomodada agora quando se depara com comentários adversos e opiniões que julgue contrárias às suas. Inventaram racismo às avessas, heterofobia e, pasmem, orgulho de ser machista. É como um reforço ainda maior para calar a torcida vizinha quando o grito do outro, em decibéis, não chega nem a um terço do seu. Querem reforçar o que já é maioria, porque enxergam uma ameaça ilusória. E a verdade é que essa analogia entre a nossa atual sociedade e o estádio do futebol está longe (!!!) de ser perfeita por um detalhe muito simples: a “outra” torcida não quer gritar mais alto que ninguém. A outra torcida só quer gritar junto. Sendo assim, é preciso que as minorias façam muito, mas MUITO barulho, até que todos entendam que quando o jogo é cheio de fair play, devemos aplaudir juntos.

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