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De noite, sorridente. Pela manhã, mal-humorada. Eu vivo em Brasília, mas juro que não sei de nada. Sou publicitária, feminista, carioca das Laranjeiras. Seja bem-vindx e muito prazer. Me chamo Camila Bandeira.

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E ainda tem mais

Bora frear um trem bala?

Imagine um trem gigante… Dando voltas e voltas e voltas, sem parar em nenhuma estação. Atividade, rapidez, não tem tempo pra “piuí”. Todo mundo já nasce dentro dele. E quem quiser descer, que se vire. Tem que pular, se machucar, dar seu jeito. Nas tentativas, vários se jogam nos trilhos e aí… Já era. O machismo é isso aí: um verdadeiro trem bala. E pra gente parar esse trem, é preciso muito mais gente fora do que dentro dele.

Em uma mesma semana, dois assuntos foram notícia. Talvez você tenha lido ao menos uma delas.

  1. Funcionária de grande empresa do Vale do Silício perdeu processo na justiça americana que acusava a empresa de discriminação por gênero.
  2. A jornalista Basília Rodrigues é assediada pelo deputado Wladimir Costa.

O primeiro caso escancarou um cenário pouco falado por aí. O lugar mais “cool” de se trabalhar em todo o mundo é legal apenas para homens. Lendo sobre o assunto, descobri que só cerca de 20% dos cargos altos de empresas localizadas no Silicon Valley são ocupados por mulheres.

E quantas – QUANTAS – brigas na justiça tratam desse caso.

É a co-fundadora do Tinder que não tem seu nome nos créditos; a moça do Twitter que processou a empresa por nunca conseguir alcançar as promoções mesmo com rendimento acima do esperado; o fundador do Snapchat, que embebedava meninas em seus tempos de faculdade. E, no meio disso tudo… Ainda tem o funcionário do Google que publicou um manifesto falando sobre por que as mulheres não sabem programar.

SIM, DOIS MIL E DEZESSETE ! ! !

O segundo fato chega a ser ainda mais preocupante para nós, brasileiras. Basília Rodrigues é uma competente jornalista da rádio CBN que sofreu assédio em plena entrevista ao deputado Wladimir Costa, do partido Solidariedade.

Pausa.
O deputado é o mesmo que virou notícia por tatuar o nome do Temer. E o partido foi da coligação do querido Aécio Neves nas eleições de 2014.
Fim da pausa.

Além de ter passado pelo comentário asqueroso do deputado – daqueles que a gente dá uma vomitadinha antes de voltar a raciocinar – ela foi alvo de uma publicação no Facebook oficial do mesmo parlamentar. E esse texto, eu nem recomendo que leiam, porque é de passar mal a semana inteira.

Particularmente, não sei como terminar este desabafo. Em geral, começo meus textos pelo final. Mas esse não tem fim, talvez nunca tenha.

Fico me perguntando como parar esse tal trem. Talvez já saibamos a resposta, só precisamos de mais gente pulando dele pra ajudar aqui nos trilhos. Vem que a gente te ajuda na fuga!

Sobre amores de outono

Dispensa dedicatórias.

Que atire o primeiro sundown quem nunca viveu um amor de verão. Desses amores desapegados, coisa de alguns dias, talvez horas. Beijos salgados, abraços suados e uma tarde quente olhando o mar, com cerveja gelada no final e um banho frio refrescante que, quando bate na pele bronzeada, parece que o mundo para de girar. Quem nunca se apaixonou em clima tropical? É bom, tem gostinho de férias… Igual aos amores de inverno.

Que atire o primeiro edredom quem nunca viveu um amor de inverno. De ficar juntinho, de comer fondue, de beber um vinho à beira da lareira. Desses amores grudados, cheios de carinhos e abraços, dormir de conchinha e acordar com uma caneca quente já na mão. Um amor de pantufas, confortável e reconfortante, com filminho no final da tarde e calor humano para aumentar a temperatura… Se aumentar demais vira primavera.

Que atire o primeiro buquê quem nunca viveu um amor de primavera. Desses floridos, coloridos, cheios de romance. Passear no parque de mãos dadas, tomar um sorvete no final, andar de bicicleta e aproveitar o dia. De noite, um drink ao som de jazz e conversa fora… Você se apaixona pelo arco-íris que se transforma aquele momento. Se melhorar, estraga… Se melhorar, vira amor de outono.

E esse, meu amigo, eu te digo… Que atire o primeiro chopp de vinho quem nunca viveu um amor de outono. Mas já saiba que está perdendo (tanto pelo amor quanto pelo chopp). Amores de outono são folhas secas… Já nascem com data de validade, com prazo para acabar. Você pode estar se perguntando “Que tipo de amor já nasce assim?” E eu te respondo: o melhor deles. O outono é a estação que poucos comemoram quando chega, mas ninguém odeia também. É preferência mundial em ser meio termo. Se procurar “conforto” no dicionário, o outono é sinônimo. E os amores de outono nunca passam despercebidos. Porque muito embora eles tenham vindo para acabar, acabam durando as quatro estações do ano. Deste e do que vem. E talvez do outro… Quem sabe?

Tem gente demais saindo do armário 

Eu não sei vocês, mas se eu ganhasse cem reais para cada pessoa que deixei de seguir no Facebook nos últimos dois anos, estaria escrevendo esse texto em meu iPhone 7, diretamente de uma praia em Ibiza. Achava que a sociedade estava em uma curva de evolução, mas dos últimos anos pra cá me pergunto se essa curva não está mais para uma parábola, ou, quem sabe, uma circunferência? Vou tentar explicar com exemplos.

Enxergo minha humilde existência da seguinte forma: quando criança, ouvia piadas de “neguinhos”, “bichas” e “loiras”. Todos achavam engraçado, era senso comum nos lugares que eu frequentava. Pré-adolescente, comecei a reproduzir esse tipo de piada, o que pode até ser considerado natural, uma vez que somos mais facilmente influenciáveis quando jovens. Já adolescente, comecei a questionar alguns desses comentários e a reprovar outros. Adulta, reprovo a porra toda, brigo e se quiser discutir, já abro logo meus slides e começo o discurso. Bem, esse é um breve resumo sobre como cresci. Minha prima, geração Z, já nasceu sabendo um monte de coisas. Ela ainda deve ouvir piadinhas racistas, sexistas e homofóbicas por aí, principalmente porque as gerações que as criaram continuam à solta, mas ela sabe que não deve reproduzir, não vê graça e reprova desde cedo. E isso é lindo!

Há cinco anos atras, a Coca-Cola lançou a campanha “Os bons são maioria” e me encheu de esperança na geração Y. Que orgulho! Dois anos atrás, eu ouvi uma professora dizer que “o mundo está evoluindo muito, temos que acreditar”. E, neste ano, o Rio de Janeiro elege Crivella, os Estados Unidos votam por Trump e um pai assassina seu filho por participar de movimentos sociais e ocupação de escolas. As mulheres foram empoderadas, os negros lutam por igualdade racial, os LGBTs saíram do armário… e eu considerava – e ainda considero – tudo isso uma vitória para a humanidade. Mas pra boa parte da nós, parece que a mesma liberdade que permite que o progresso aconteça permite que saia do armário quem podia passar a vida escondidinho lá dentro. São os homofóbicos, os machistas, os racistas, xenófobos, reacionários, orgulhosos, conservadores e eleitores do Bolsonaro. Esses, que batem no peito em defesa da parada do orgulho hétero, do dia da consciência branca e que acreditam que as feministas querem viver em um mundo só de mulheres. Coitados.

Dia desses, cometi o erro de abrir a página do repugnante deputado para ver quais dos meus conhecidos acompanhavam suas publicações. Achei que, no máximo, encontraria alguns de meus amigos ativistas, que poderiam curtir a página só para observar as asneiras. Doce ilusão. Descobri que não sinto orgulho de todos os meus amigos. Inclusive, se soubesse que tipo de ideias eles defendem, talvez repensasse o começo da amizade. Radical demais? Caguei.

Muito que bem… voltemos à parábola. A impressão que tenho é que toda vez que chegamos no ponto chave de realmente começar a progredir, algum cálculo dá errado e começamos a andar em marcha ré. Tomara que seja só impressão minha. Mas a questão é que me espanta ver o quanto as pessoas se sentem “oprimidas” pelas minorias hoje em dia. E o quanto machuca quando a estrutura – patriarcal, heteronormativa, elitista, branca e rica – é balançada, nem que seja um centimetrozinho. E o pior de tudo! Essa galera jamais vai assumir o recalque. Porque desse armário aí, engraçado… eles perderam a chave.

Entre um líder religioso e um agressor machista, o Rio só tem uma saída

Dia desses, minha prima pediu minha opinião sobre alguns candidatos à prefeitura do Rio. Ela está indecisa quanto ao voto e queria ouvir a opinião de pessoas com as quais ela se identifica. Respeitável, não? E ela me fez pensar sobre eleições, sobre os candidatos e, principalmente, sobre estratégia.

Para quem pensa minimamente como esquerda hoje, o cenário das eleições do Rio parece um show de horrores. Vemos Jandira sem voz nos debates, vemos Molon sendo aplaudido somente pela sua aparência e queremos acreditar que Freixo não está dando murro em ponta de faca. Mas não estou aqui para falar das minhas ideologias e, sim, de estratégia. Em 2016, os votos não serão somente para quem nos identificamos ou acreditamos. Precisamos pensar em quem não queremos lá.

Essa tal estratégia é até contrária ao que defendo em primeiro turno de eleições, mas a situação é crítica e pede um pouco de reflexão. Costumo acreditar na ideia de que o primeiro turno é o momento para votarmos em quem acreditamos, independentemente das pesquisas e dos candidatos concorrentes. Precisamos acreditar na nossa liberdade eleitoral e exercê-la, acredito. Procuro pelas melhores propostas e sempre voto com orgulho no primeiro turno, ainda que seja em um candidato com pouca aderência, de partido pequeno ou nenhuma chance de ganhar. Como cidadã, me dou esse direito e me sinto ótima com essa decisão. Mas, dessa vez, fazer isso é um tiro no pé. E o mesmo vale para anulação de voto.

O cálculo é simples, vamos lá. Se apenas os dois mais votados vão para segundo turno, o ideal é que ao menos um deles nos represente. Se as pesquisas apontam os dois mais votados como duas pessoas que absolutamente não queremos no poder, devemos focar em uma terceira via, em alguém que possa fazer com que, ao menos, tenhamos escolha para o segundo turno das eleições. Mas se eu me identifico com um candidato com 2 ou 3% dos votos, exercer a minha tal “liberdade eleitoral” é fechar os olhos para as eleições e ser conivente com um segundo turno indesejado. E agora, como fica? Estrategicamente pensando, precisamos fazer uma pirâmide eleitoral e colocar os candidatos em ordem de preferência. O candidato “votável”, na sua concepção, com maiores chances de alcançar esse segundo turno é para quem vai o voto. Isso não significa, necessariamente, que você confia e acredita em todas as medidas deles, mas pense em alguém que você prefira aos candidatos indesejados que estão à frente nas pesquisas.

Traduzindo para o cenário das eleições cariocas, é simples.

Se Crivella e Pedro Paulo não te representam, a terceira via deve ser concentrada em quem parece ter mais votos depois deles.
Se Crivella e Pedro Paulo não te representam, ainda existe uma saída.
Se Crivella e Pedro Paulo não te representam, o único caminho é votar em Freixo, ainda que o desejo seja de votar em Jandira, em Molon, em Índio ou quem seja.

Vocês enxergam outra saída?

Bem, pessoalmente, tenho motivos de sobra para votar #Freixo50, mas, entendam, as eleições neste ano não têm muito a ver com nossas ideologias nem identificações. A única forma de tentar mudar o Rio é pensando de forma estratégica.

E, claro, sem esquecer que Pedro Paulo bate em mulher.

Com o perdão do trocadilho, ser mulher é do caralho

Texto original, de março de 2016, no site Obvious.

feminismo

Se pudesse escolher, seria mulher dez vezes, cem, mil! Em qualquer época, a qualquer momento. Seria mulher para não ter direito de voto. Seria mulher para não poder usar calça comprida (e depois short curto). Seria negra, da periferia, para trabalhar em dois turnos e ainda cuidar dos filhos. Seria mulher para ser assassinada ao viajar sozinha. Seria mulher cis e seria mulher trans!

Seria mulher oriental, em família de filho único, para ser rejeitada a vida inteira por não produzir testosterona. Seria mulher para apanhar do marido. Seria mulher para ser estuprada. Seria mulher para ser dona de casa, sustentar a família e ainda cuidar da tia doente. Seria mulher para ser objeto sexual. Seria mulher para viver à espera de um príncipe encantado. Seria mulher para ter que fazer dieta para o verão, porque gorda não pode ir à praia.

Seria mulher para ser assediada na rua, ouvir fiufiu de imbecil e ter que tirar o batom se o namorado mandasse. Seria mulher para ganhar um salário menor que os homens que desempenhassem as mesmas funções que eu. Seria mulher para sofrer mutilação genital. Seria mulher para ouvir piada sexista. Seria mulher para ser chamada de feminazi. Seria mulher para tirar a blusa e ouvir que isso é atentado ao pudor. Seria mulher para me prostituir. Seria mulher para fazer aborto clandestino, já que é a única solução que me restaria.

Eu seria mulher quantas vezes fossem necessárias para provar ao mundo que, mesmo com todas as condições às quais somos submetidas, jamais desistiríamos de ser quem somos.

Porque eu seria mulher de novo para gritar ao mundo que mereço direitos iguais. Seria mulher de novo para poder votar a cada eleição. Seria mulher de novo para poder dirigir sem ser xingada no trânsito. Seria mulher de novo para dividir as tarefas da casa. Seria mulher de novo para não usar mais sutiã. Seria mulher de novo para usar roupa rosa e roupa azul e roupa amarela e roupa de arco-íris. E para não usar roupa nenhuma!

Seria mulher de novo para ocupar cargos políticos. Seria mulher de novo para poder andar sozinha à noite, sem medo. Seria mulher de novo para ser respeitada pelo meu parceiro. Seria mulher de novo para alcançar altos cargos na empresa onde trabalho. Seria mulher de novo para abortar com segurança. Seria mulher de novo para brincar de boneca e de carrinho e do que eu bem entendesse. Seria mulher de novo para usar muita saia curta e muito batom vermelho.

E seria mulher de novo, simplesmente, para sentir o orgulho que sinto todos os dias quando acordo e que só nós, mulheres, sabemos como é.

A palavra da vez é: empoderamento

Texto original, de março de 2016, no site Obvious.

jout

Dia Internacional da Mulher, primavera feminista, março lilás… E encerramos a primeira semana do mês com a impressão de que não conseguimos acompanhar. Parece que ninguém conseguiu. Como apaixonada pelo universo digital e mais ainda por empoderamento feminino, venho trazer um pouco do meu olhar sobre essa avalanche de conteúdo feminista pela qual estamos tendo o prazer de ser soterrados. Em 2016, o Youtube fez história.

Apesar de spoilers captados pelos mais envolvidos, tudo começou com um vídeo simples, que mostrava sete youtubers influentes representando 7 mulheres poderosas que lutaram, cada uma em seu tempo, por espaços na sociedade. São quase três minutos de muitos pelinhos arrepiados no braço. E isso tudo só com a trilha correta, frases icônicas e figurino impecável. Simples e incrível… Jeitinho Youtube de ser. No Brasil, nossa representante foi ninguém menos que a genial Julia Tolezano, mãe da família Jout Jout. Nos vídeos seguintes e em suas publicações por todos os dias, ela fez questão de explicar o projeto e o que toda essa movimentação significava.

Minha percepção sobre essa campanha em uma palavra: metalinguagem. O Youtube promoveu o encontro entre youtubers mulheres de todo o mundo para falar sobre mulheres no Youtube em todo o mundo. Tchanã! De novo, simples e incrível. Cada uma das 7 youtubers que estavam no vídeo oficial receberam convidadas de seu país. Tudo para inspirar mulheres a produzir conteúdo para o Youtube, a ocupar o Youtube, a se fazer presente.

No cantinho bem decorado do Youtube Space de São Paulo, Jout Jout teve 10 encontros com mulheres maravilhosas para falar sobre serem quem são. As convidadas no Brasil foram das mais variadas. Segura o tranco pra essa lista.

Malena quebrou tabus e falou sobre mulheres no universo dos videogames.

Nátaly Neri deu uma aula sobre feminismo negro. E esse foi o único vídeo que não foi para o canal da convidada e, sim, para o próprio Jout Jout Prazer, simplesmente porque a pauta precisa alcançar novos públicos.

Jessica Tauane e Debora Baldin, musas do Canal das Bee, receberam a drag queen Lorelay Fox. E ainda teve uma conexão especial com a Mandy Candy, diretamente de Hong Kong. Foi um combo e tanto, de onde saíram dois vídeos sobre o universo LGBT no Youtube, feminismo e muita risada, como sempre.

Julia Petit falou sobre maquiagem e toda a filosofia por trás do ~supérfulo~, provando que esse tema, de fútil, não tem nada.

Lili Prata e Tati Feltrin, youtubers aos 30, falaram exatamente sobre como é viver disso com mais de 30 anos. E este vídeo ainda contou com a participação da Tati Leite, que tem dois canais no Youtube e coordena projetos no Youtube Space de São Paulo.

Ana de Cesaro dividiu seu vídeo em três e fez uma dinâmica diferente. Ela e Jout Jout tiravam papeizinhos com palavras-chaves e falavam sobre assuntos dos mais diversos: de sexo anal a mulheres no cinema.

Ana Lídia Lopes, a caçula do grupo, falou sobre empoderamento e descoberta da própria identidade. E todos morremos de inveja por não poder abraçá-la também.

A queridinha Flavia Calina não esteve em São Paulo, mas se fez muito presente. Ela falou sobre como é viver em um verdadeiro Show de Truman (e muito mais, é claro. Só assistindo pra entender).

Iza Lima, cantora (maravilhosa) e amiga pessoal da Jout Jout, completou o time por uma feliz coincidência: as duas iniciaram suas carreiras no Youtube no mesmo momento.

E por último, mas não menos importante, ainda teve a Bruna Vieira, que, como a própria Julia fez questão de repetir, “tem 21 anos e já está construindo a própria casa.” Não precisamos mais falar nada.
Mas, afinal, qual foi o propósito?

Como exercício pessoal, sempre me coloco em uma situação de imaginar razões, motivos e intenções por trás de cada movimentação. A verdade é que o Youtube já deve ter percebido que vem fazendo a diferença na vida das mulheres nos quatro cantos do mundo. Então, aproveitaram uma data mundial para provar que ainda podemos mais. Indo além de todo o objetivo comercial, criaram uma campanha de empoderamento totalmente inédita e fizeram, simplesmente, o que muita gente se esquece no dia da mulher: dar voz a quem tem propriedade para falar sobre o tema.

E tudo isso, além de terem feito muita gente feliz, porque ver essas lindas reunidas foi de encher o coração!

Os vídeos principais estão disponíveis no canal Youtube Brasil. Mas tem conteúdo extra espalhado pelos canais das meninas também. E vale a pena uma maratona. 😉

Atualização: Horas depois da publicação deste texto, Jout Jout soltou um vídeo explicando o projeto ainda melhor e mostrando todas as poderosas que participaram. Assiste aqui ó!

Torcida única

Texto original no site Obvious.

torcida

Racismo às avessas, orgulho machista, heterofobia… Dor de cotovelo. Tudo isso agora existe e o que, por séculos, foi ignorado agora é “gente chata”, “politicamente correto”, “falta de rola”, “falta de porrada”, “frescura”, problematização.
Prometo tentar ser didática se você, que já está odiando esse texto, prometer ler com atenção.
Tenho certeza que a maioria das pessoas que conheço já foi a um estádio de futebol. E vocês sabem o que é estar em maioria e só ouvir o som da sua torcida, linda, em coro, unida. É de arrepiar, eu sei!
Mas o ponto é que quando uma torcida é maioria esmagadora, é difícil escutar o outro lado do estádio, quase impossível. Só que a cada gol do adversário, quando o seu lado se cala por instantes, você passa a ouvir o que vem do outro lado, e um pequeno incômodo nasce no peito, embrulha o estômago, sobe à cabeça. E eu sei como é isso também!
Por quase todos os momentos da minha vida, eu estive na maior torcida. Tivera nascido homem e eu poderia afirmar que foi por todos os momentos mesmo. Sempre tive privilégios, sempre estive ao lado de quem gritava mais alto. E poucas vezes tive que me esgoelar para ser ouvida. Sim, para mim sempre foi fácil.
Pois bem, aonde eu queria chegar é que essa tal “torcida mandante” está, pela primeira vez em toda a sua existência, escutando, beeem ao longe, o grito crescente da torcida vizinha, que parecia muda por séculos. A diferença é que essa disputa envolve muito mais que times de futebol. Envolve nossos valores, nosso futuro e nossa sociedade: diversa, linda, “junto e misturado”, do jeitinho que ela sempre foi.
E muita gente se sente incomodada agora quando se depara com comentários adversos e opiniões que julgue contrárias às suas. Inventaram racismo às avessas, heterofobia e, pasmem, orgulho de ser machista. É como um reforço ainda maior para calar a torcida vizinha quando o grito do outro, em decibéis, não chega nem a um terço do seu. Querem reforçar o que já é maioria, porque enxergam uma ameaça ilusória. E a verdade é que essa analogia entre a nossa atual sociedade e o estádio do futebol está longe (!!!) de ser perfeita por um detalhe muito simples: a “outra” torcida não quer gritar mais alto que ninguém. A outra torcida só quer gritar junto. Sendo assim, é preciso que as minorias façam muito, mas MUITO barulho, até que todos entendam que quando o jogo é cheio de fair play, devemos aplaudir juntos.

Sobre ervas daninhas

Inspirada no texto da linda Debora Baldin (que estava inspirada no texto da linda Jessica Ipólito), me coloquei em uma reflexão um tanto valiosa para minha existência e toda essa ideia de busca pela felicidade, principalmente a pessoal. Desde criança, sou apoiada a realizar as atividades que desejei. Sempre acreditei que fui criada em uma família “moderninha”, de mulheres fortes e independentes, que aceita as diferenças, suporta o empoderamento feminino e convive em harmonia. Aos poucos, comecei a entender que machismo, homofobia, racismo, gordofobia e um monte de outras mazelas estão absolutamente enraizadas em nossa sociedade. E é difícil de se descolar desse tipo de cultura, até mesmo para quem tem consciência da existência dela, como acredito ser o meu caso.

Dos meus 13 anos em diante, sempre acreditei que minha beleza não se enquadrava no padrão. Ou pior, que não podia chamar de “beleza”. Sempre me preocupei com o que pensariam das minhas celulites e quilos a mais. Me envergonhei de algumas situações e sempre tive dificuldade na tal luta contra a balança. Ainda me pergunto o porquê disso tudo e tento passar por cima com a mesma força que encorajo minhas amigas a fazer. Desde muito cedo, tento passar a imagem de que não me importo com isso, para, quem sabe, convencer a mim mesma de que acredito no que defendo. Mas fui moldada a esta sociedade e continuo achando necessário se enquadrar ao estilo salada-academia-bronzeado. É um exercício diário de despadronização, para aceitar e aplicar tudo que eu sempre julguei certo. Ainda assim, me pego reproduzindo discursos e reforçando o uso de estereótipos o tempo inteiro.

Até quando esse tipo de cultura vai estar dentro de nós desta forma? Se é difícil para mim, que reflito sobre isso há anos e procuro referências com frequência sobre todos esses temas, imagina a dificuldade para as gerações dos meus avós, pais e tios, por exemplo, que não fazem ideia do mal que propagam. Nunca se preocuparam ao denegrir a imagem da empregada doméstica, se colocam contra o aborto sem justificativa lógica e desligam a TV por conta de um beijo gay. Tudo sem culpa.

A luta de todas as minorias não é coisa fácil. Não são batalhas de opiniões. São batalhas de direitos. E, muitas vezes, são batalhas contra nós mesmos e tudo que somos induzidos a pensar e fazer e assistir e reproduzir ao longo de uma vida.

Bem, o que posso pedir aos mais esclarecidos é que disseminem a leitura, o hábito da informação e o amor ao próximo de forma genuína. Saiam da zona de conforto e leiam sobre o que parece contrário também. Quem sabe, assim, as próximas gerações tenham estímulos mais adequados e menos preconceituosos. Mas, enquanto isso, que a luta continue.

Um dia 13 de junho

Um dia vou descobrir que você era ainda mais. Vou descobrir que a gente viveu outras vidas juntos, e fomos irmãos em todas elas. Vou descobrir que você guardou espetos pra me proteger, me deu sua armadura séculos depois, me tirou do tronco na outra vida e só aí me salvou do tombo de bicicleta. Vou descobrir que antes de você me ensinar a jogar tênis, me ensinou a montar um cavalo, e me ensinou a atirar quando mulheres nem faziam isso. Vou descobrir que já dividimos mais do que contas de bar. Dividimos celas, sandálias arrebentadas e oxigênio pra fugir da guerra. Vou descobrir que você deu a vida por mim uma das vezes e que só pude retribuir algumas gerações depois. Um dia vou descobrir que a gente vai ser mais! Vou descobrir que você ainda vai me ensinar a dirigir carros voadores, a curar machucados em segundos e a cozinhar sem fogo. Vou descobrir que a gente ainda vai dividir os últimos goles de água do planeta, que a gente ainda vai mudar de planeta, vai ter um planeta só nosso… Ainda vou descobrir tudo isso e lembrar que essa vida foi só um susto pra quem tem mil outras pra viver junto. Hoje é o melhor dia do ano. Feliz 13 de junho! 🎈

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