Eu não sei vocês, mas se eu ganhasse cem reais para cada pessoa que deixei de seguir no Facebook nos últimos dois anos, estaria escrevendo esse texto em meu iPhone 7, diretamente de uma praia em Ibiza. Achava que a sociedade estava em uma curva de evolução, mas dos últimos anos pra cá me pergunto se essa curva não está mais para uma parábola, ou, quem sabe, uma circunferência? Vou tentar explicar com exemplos.

Enxergo minha humilde existência da seguinte forma: quando criança, ouvia piadas de “neguinhos”, “bichas” e “loiras”. Todos achavam engraçado, era senso comum nos lugares que eu frequentava. Pré-adolescente, comecei a reproduzir esse tipo de piada, o que pode até ser considerado natural, uma vez que somos mais facilmente influenciáveis quando jovens. Já adolescente, comecei a questionar alguns desses comentários e a reprovar outros. Adulta, reprovo a porra toda, brigo e se quiser discutir, já abro logo meus slides e começo o discurso. Bem, esse é um breve resumo sobre como cresci. Minha prima, geração Z, já nasceu sabendo um monte de coisas. Ela ainda deve ouvir piadinhas racistas, sexistas e homofóbicas por aí, principalmente porque as gerações que as criaram continuam à solta, mas ela sabe que não deve reproduzir, não vê graça e reprova desde cedo. E isso é lindo!

Há cinco anos atras, a Coca-Cola lançou a campanha “Os bons são maioria” e me encheu de esperança na geração Y. Que orgulho! Dois anos atrás, eu ouvi uma professora dizer que “o mundo está evoluindo muito, temos que acreditar”. E, neste ano, o Rio de Janeiro elege Crivella, os Estados Unidos votam por Trump e um pai assassina seu filho por participar de movimentos sociais e ocupação de escolas. As mulheres foram empoderadas, os negros lutam por igualdade racial, os LGBTs saíram do armário… e eu considerava – e ainda considero – tudo isso uma vitória para a humanidade. Mas pra boa parte da nós, parece que a mesma liberdade que permite que o progresso aconteça permite que saia do armário quem podia passar a vida escondidinho lá dentro. São os homofóbicos, os machistas, os racistas, xenófobos, reacionários, orgulhosos, conservadores e eleitores do Bolsonaro. Esses, que batem no peito em defesa da parada do orgulho hétero, do dia da consciência branca e que acreditam que as feministas querem viver em um mundo só de mulheres. Coitados.

Dia desses, cometi o erro de abrir a página do repugnante deputado para ver quais dos meus conhecidos acompanhavam suas publicações. Achei que, no máximo, encontraria alguns de meus amigos ativistas, que poderiam curtir a página só para observar as asneiras. Doce ilusão. Descobri que não sinto orgulho de todos os meus amigos. Inclusive, se soubesse que tipo de ideias eles defendem, talvez repensasse o começo da amizade. Radical demais? Caguei.

Muito que bem… voltemos à parábola. A impressão que tenho é que toda vez que chegamos no ponto chave de realmente começar a progredir, algum cálculo dá errado e começamos a andar em marcha ré. Tomara que seja só impressão minha. Mas a questão é que me espanta ver o quanto as pessoas se sentem “oprimidas” pelas minorias hoje em dia. E o quanto machuca quando a estrutura – patriarcal, heteronormativa, elitista, branca e rica – é balançada, nem que seja um centimetrozinho. E o pior de tudo! Essa galera jamais vai assumir o recalque. Porque desse armário aí, engraçado… eles perderam a chave.

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