Texto original no site Obvious.

torcida

Racismo às avessas, orgulho machista, heterofobia… Dor de cotovelo. Tudo isso agora existe e o que, por séculos, foi ignorado agora é “gente chata”, “politicamente correto”, “falta de rola”, “falta de porrada”, “frescura”, problematização.
Prometo tentar ser didática se você, que já está odiando esse texto, prometer ler com atenção.
Tenho certeza que a maioria das pessoas que conheço já foi a um estádio de futebol. E vocês sabem o que é estar em maioria e só ouvir o som da sua torcida, linda, em coro, unida. É de arrepiar, eu sei!
Mas o ponto é que quando uma torcida é maioria esmagadora, é difícil escutar o outro lado do estádio, quase impossível. Só que a cada gol do adversário, quando o seu lado se cala por instantes, você passa a ouvir o que vem do outro lado, e um pequeno incômodo nasce no peito, embrulha o estômago, sobe à cabeça. E eu sei como é isso também!
Por quase todos os momentos da minha vida, eu estive na maior torcida. Tivera nascido homem e eu poderia afirmar que foi por todos os momentos mesmo. Sempre tive privilégios, sempre estive ao lado de quem gritava mais alto. E poucas vezes tive que me esgoelar para ser ouvida. Sim, para mim sempre foi fácil.
Pois bem, aonde eu queria chegar é que essa tal “torcida mandante” está, pela primeira vez em toda a sua existência, escutando, beeem ao longe, o grito crescente da torcida vizinha, que parecia muda por séculos. A diferença é que essa disputa envolve muito mais que times de futebol. Envolve nossos valores, nosso futuro e nossa sociedade: diversa, linda, “junto e misturado”, do jeitinho que ela sempre foi.
E muita gente se sente incomodada agora quando se depara com comentários adversos e opiniões que julgue contrárias às suas. Inventaram racismo às avessas, heterofobia e, pasmem, orgulho de ser machista. É como um reforço ainda maior para calar a torcida vizinha quando o grito do outro, em decibéis, não chega nem a um terço do seu. Querem reforçar o que já é maioria, porque enxergam uma ameaça ilusória. E a verdade é que essa analogia entre a nossa atual sociedade e o estádio do futebol está longe (!!!) de ser perfeita por um detalhe muito simples: a “outra” torcida não quer gritar mais alto que ninguém. A outra torcida só quer gritar junto. Sendo assim, é preciso que as minorias façam muito, mas MUITO barulho, até que todos entendam que quando o jogo é cheio de fair play, devemos aplaudir juntos.

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