Texto de 01/10/2012

Notório não era notado. Era adotado e dotado de uma vida de poucos amigos. Os pais se foram cedo, a vida não foi moleza. E cresceu assim. Na solidão sem fim, viu crescer barba, bigode, cabelo. Trocou a boina pelo terno, já era seu terceiro emprego. Depois virou “Seu Notório”. Viu o fax ser posto de lado, o preto ficou grisalho, mas nunca um aliado. O sonho de Notório era singular. Queria família, amigos, um par, tanto faz. Dava tempo de ser feliz. Notório queria paz. Foi quando encontrou Jaci. Senhora viúva, enxuta, sentadinha bem ali. Puxou assunto sobre o tempo e o papo rendeu. Seu Notório não sabe o que fez. Como isso aconteceu? Aos 62 anos foi notado pela primeira vez. Primeira e última, ele saberia depois. Ao se levantar do banquinho, Jaci caiu. E subiu, se foi. Traumatismo nível seis. Existe algo assim, doutor? Isso, nem eu sei, mas, verdade seja dita, a hora dela chegou. E Seu Notório seguiu, a vida continuou. Solidão era seu destino, até terça-feira passada. Seu Notório dormiu e não mais acordou, não deu tempo de viver mais nada. Foi encontrar Jaci e descobrir o bem que fez. Jaci, viúva egoísta, não pensava em nenhum bem, mas, naquela tarde na praça, havia notado alguém também pela primeira vez.

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