Pela primeira vez em três anos eu não quis deixar o Rio. Depois de 21 anos de vida puramente carioca, a mudança para Brasília foi como um upgrade para a melhor fase da vida. Essa cidade me recebeu, me colocou no colo e ainda fez cafuné. Me apaixonei por Brasília com a maior das certezas (não que exista outra forma de se apaixonar). Mas, dessa vez, quando o avião tocou a pista do Santos Dummont e desembarquei em um saguão de ésses puxados, meu coração bateu mais forte. Foram só 36 horas no Rio e talvez isso tenha contribuído para que eu não tenha, nem de longe, matado a saudade. Talvez a chuva do final de semana e o friozinho tenham me feito esquecer dos 45 graus no verão, do suor pós banho e do desejo de ar condicionado. Talvez o pouco tempo e os desencontros com quase todos os amigos tenham me feito voltar com gostinho de quero mais sem lembrar dos preços surreais, dos assaltos e do trânsito infernal. Ainda assim, andar por Laranjeiras fez eu me sentir pertencente ao Rio de novo. Não há nada como rostos conhecidos e abraços apertados. Acho lindo e saudável quando, aqui em Brasília, estendo o braço na faixa e os carros param, mas não tem nada mais carioca do que atravessar a rua calculando o tempo para cada veículo passar. E descobri que ainda sei fazer isso. Hoje, voltei para Brasília com um aperto no peito inédito. Amanhã volto para a rotina e para encarar a reta final do ano a contragosto, mas com vontade de esquecer esse amor proibido. Deixei meu coração no Rio. Tomara que ele volte logo.

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